Crefono 6 identifica desafios estruturais na assistência fonoaudiológica de Uberlândia durante edição do CAV
Entre os dias 4 e 7 de novembro de 2025, o Crefono 6 esteve em Uberlândia para mais uma edição do projeto Crefono Até Você (CAV), iniciativa que leva orientação, fiscalização e escuta ativa às instituições de saúde do estado. A comitiva formada pelos conselheiros Joana Penayo, Thaís Moura, Camila Ramos e Rennan Reis e pela fonoaudióloga fiscal Suzana Afonso percorreu serviços públicos, privados e filantrópicos da cidade, reunindo-se com gestores, equipes multiprofissionais e fonoaudiólogos. O objetivo foi compreender o cenário da assistência no território, identificar desafios comuns às instituições e orientar sobre as normativas que regem o exercício profissional.
Ao longo das visitas, ficou evidente que Uberlândia enfrenta um conjunto de situações estruturais que impacta diretamente tanto o trabalho dos profissionais quanto o acesso dos usuários aos serviços de Fonoaudiologia. O primeiro deles é a dificuldade de provimento de vagas. Diversas instituições relataram longos períodos sem conseguir contratar fonoaudiólogos, mesmo com editais abertos e vagas disponíveis. Em alguns serviços, a ausência de profissionais já dura meses, comprometendo atendimentos essenciais, especialmente aqueles destinados a pessoas com deficiência, crianças com TEA e pacientes neurológicos. A falta de profissionais também faz com que muitas unidades funcionem com carga horária bem abaixo do determinado por normativas federais, um problema que se repete em diferentes cidades, não apenas em Uberlândia, e que agrava a demanda reprimida.
Essa escassez de mão de obra se conecta a um segundo desafio: a remuneração e as condições de trabalho. As remunerações oferecidas na cidade variam significativamente, indo de remunerações acima do praticado pelo mercado quando a contratação ocorre como Pessoa Jurídica e abaixo do que preconiza o Sindicato dos Fonoaudiólogos de Minas Gerais para contratação como CLT. Além disso, as cargas horárias de atendimento por período são altas e, em diversas instituições, o tempo destinado às sessões é considerado insuficiente pelas próprias equipes.
Outro ponto observado pelo CAV foi a grande demanda reprimida na cidade. Filas de espera longas, especialmente nas áreas de neurologia, saúde auditiva e Transtorno do Espectro Autista (TEA), foram relatadas por diferentes órgãos. Em um dos hospitais visitados, mais de 700 pacientes aguardavam regulação para serviços de diagnóstico e reabilitação auditiva. Em outras instituições, apesar de haver estrutura e fluxo organizados, o número reduzido de profissionais impossibilita que toda a demanda seja absorvida.
A documentação e o registro técnico das atividades também apareceram como um problema recorrente. A equipe do Crefono 6 identificou prontuários eletrônicos sem certificação digital, ausência de campos obrigatórios, registros incompletos e fragilidades nos sistemas utilizados. Além disso, as equipes relataram dificuldade em registrar adequadamente início e término das sessões, bem como em elaborar relatórios dentro do tempo disponível de atendimento, algo previsto e obrigatório em normativas do CFFa.
Outro desafio relatado por gestores e profissionais é a limitação estrutural para atender casos de maior gravidade. Algumas unidades afirmaram não possuir salas, equipamentos ou equipe suficiente para absorver pacientes com TEA ou com quadros neurológico complexos. Com isso, as famílias acabam enfrentando longos períodos de espera ou precisam buscar atendimento em outras instituições, o que fragmenta o cuidado e sobrecarrega serviços já saturados.
Todas essas questões foram discutidas diretamente com a Secretaria Municipal de Saúde, que reconheceu os desafios históricos da cidade, especialmente no provimento de vagas e na dificuldade de atrair profissionais para a rede. Apesar de avanços em relação a anos anteriores, a gestão municipal ainda enfrenta limitações importantes. Os representantes da Secretaria também relataram entraves administrativos para início de serviços já contratados e destacaram a necessidade de reestruturar o atendimento a pacientes com TEA com uma equipe verdadeiramente multiprofissional.
A edição do CAV Uberlândia foi encerrada com a oficina de Prontuário e Relatório, realizada no dia 6 de novembro, com a participação de 32 profissionais e estudantes. O encontro reforçou orientações sobre documentação técnica, parâmetros assistenciais e boas práticas exigidas pelo CFFa, além de promover diálogo qualificado com a categoria.
Ao final da visita, o Crefono 6 reforçou seu compromisso com o fortalecimento da Fonoaudiologia no Triângulo Mineiro. O conjunto de problemas identificados demonstra a necessidade de ações contínuas, articulação com gestores, valorização profissional e acompanhamento rigoroso das normativas. Os encaminhamentos definidos serão acompanhados pelos conselheiros responsáveis, garantindo que cada instituição receba as orientações e deliberações necessárias para melhorar a assistência prestada à população.